Nasci num distrito à 50 km da cidade de Vacaria, cidade com 60 000 habitantes, localizada na região nordeste do Rio Grande do Sul. Estudei numa escola onde havia um sala de aula com alunos de 1ª a 5ª série, portanto muitos alunos de diversas idades ocupando o mesmo espaço e fazendo as mesmas brincadeiras/jogos. Minha professora se chamava Jussara. Lembro muito dessa época. Após a conclusão da quinta série e já com 12 anos de idade mudei-me com minha família para Vacaria. Minha trajetória no teatro começou em Vacaria, durante o Ensino Médio, naquela época chamado de 2° grau, dentro da disciplina de literatura. Lembro que a professora, da qual esqueci o nome, pediu para que escolhêssemos um conto do Machado de Assis e então fizéssemos a transformação do texto literário para a forma dramática, para o encenarmos. Apesar de ter vindo de uma família muito humilde do interior e sem ter tido qualquer experiência formal que envolvesse o teatro, só em ouvir “essa palavra” tive imediatamente interesse na tarefa e logo havia me tornado o líder do grupo para o trabalho. Me pus a leitura do tal conto “Missa do Galo” e a sua adaptação ao teatro. Em pouco tempo, estava não só com o texto dramático em mãos, mas com inúmeras ideias de como coloca-las cenicamente no palco. Na minha concepção, tinha um sofá vermelho no centro da cena. Porém, apesar de meu empenho, meus colegas não quiseram assumir as responsabilidades da montagem e acabamos entregando apenas a adaptação para a professora. Hoje, questiono sobre como eu haveria feito aquilo, ter pensado em cenas, mesmo sem nunca ter assistido alguma peça de teatro e sem possuir qualquer conhecimento formal sobre o assunto. Talvez pensando como nos chegam milhares de informações sobre o teatro em nossas casas. Um desses meios é a massiva televisão, com seus modelos estereotipados do que seria o teatro.
Continuando... Somente aos 18 anos, fui assistir minha primeira peça de teatro, chamada “Um Lugar Sagrado”, com o ator Marcos Verza, hoje mais dedicado ao trabalho com cinema em Porto Alegre, e Piti Sgarbi1, que posteriormente a essa apresentação mudou-se para Porto Alegre, onde formou-se no Tepa – Teatro Escola da Porto Alegre. Minhas lembranças sobre esse fato são que no final da peça, eu quase não consegui aplaudir de tão emocionado. Pensava que era isso que eu queria fazer. Queria ser ator!!! Mas de que maneira? Me considerava “sem talento”. Hoje, acredito que talento não importe tanto quanto vontade de fazer, de transpirar, de ir atras dos objetivos. Segundo a diretora e autora de teatro, Viola Spolin2,
Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. As pessoas que desejarem são capazes de jogar e aprender a ter valor no palco... Se o ambiente permitir, pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo o que ele tem que ensinar. “Talento” ou “falta de talento” tem muito pouco a ver com isso. Devemos considerar o que significa “talento”. É muito possível que o que é chamado comportamento talentoso seja simplesmente uma maior capacidade individual de experienciar. (Spolin, 2008, pg. 03)
Esse pensamento, um pouco mais elaborado sobre o trabalho do ator e da criação teatral só tenho. Porém mesmo pensando sobre a “falta de talento” não deixei de acreditar na possibilidade de me tornar ator. Depois de “Um Lugar Sagrado”, procurava me manter informado em relação a todas as peças que apareciam na Cidade, bem como manifestava o interesse em participar de cursos ou oficinas.
No ano seguinte fui aprovado no vestibular na Sociedade Lageana de Educação, Lages, Santa Catarina, para cursar o bacharelado de publicidade e propaganda. Mesmo estudando em Lages, continuava morando em Vacaria. Enquanto cursava a universidade, sonhava em um dia poder ser ator, poder trabalhar com o teatro. De vez em quando procurava na internet escolas que formassem atores. Havia algumas boas opções em Porto Alegre: UFRGS3, Tepa4, Depósito de Teatro5 e Terreira da Tribo6. Todas essas ficavam muito distantes de minhas condições naquele momento, pois em Vacaria não parecia haver alguém confiável com quem eu pudesse fazer um curso de formação.
Naquele período conheci algumas pessoas que faziam teatro amador em Vacaria. Um dia assisti, num evento, esquetes teatrais, dentre elas uma que com poemas de Carlos Drummond de Andrade. A que mais me chamou atenção inspirava-se no poema “José”. Esse poema foi tão marcante pra mim que o transcrevo aqui,
E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia, e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio – e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?7
Hoje, julgo-o muito importante, pois foi esse o primeiro fragmento de texto que decorei e ficava falando-o, buscando intenções diferentes para dizê-lo. Um ano depois dessa experiência, o ator que representou esse poema, me convidou para trabalhar como continuísta num curta metragem que estava produzindo, chamado “O Ciclo”1. Esses fatores, aliados a uma entrevista com o ator Rodrigo Santoro, no programa “Domingão do Faustão” da Rede Globo, dizendo que quando decidiu estudar teatro precisava se deslocar de uma cidade a outra, resolvi buscar uma escola de teatro, mesmo que precisasse me deslocar de Vacaria à outra Cidade. Encontrei e me matriculei na escola “Tem Gente Teatrando”2 de Zica Stockmans e Davi de Souza. Seis meses após minha viagens semanais a Caxias, precisei em interromper o meu curso de graduação.
Em 2003, participei das oficinas realizadas aos sábados, por durante um ano e meio, com duas montagens no final do segundo semestre. No ano seguinte ano fui convidado para integrar o espetáculo “Cordélia Brasil”, no Grupo Teatral Usina de Teatro, em Caxias do Sul.
Conheci, ainda na escola de teatro Tem Gente Teatrando a diretora e professora de teatro porto-alegrense Jacqueline Pinzon1. Tive grande empatia pelo seu método de trabalho, pois o mesmo era focado num trabalho metodológico e técnico. Decidi, então, que um dia queria trabalhar com ela, porém a distância me impedia disso.
No início de 2005, me desliguei do Grupo Usina de Teatro e voltei para a Universidade, porque me senti desafiado por minha mãe a concluir a graduação iniciada na Sociedade Lageana de Educação. Aproveitava a viagem (de ida e volta de Lages), principalmente a de volta à Vacaria para falar sobre minha vontade de ser ator, ou mesmo ficar pensando nisso enquanto olhava para as estrelas pela janela do ônibus.
Decidido a abandonar minha cidade para estudar teatro, comecei estudar para concursos públicos que fossem na Região Metropolitana de Porto Alegre. Em Agosto de 2006, estava morando em Porto Alegre, e em setembro desse mesmo ano, estava estudando novamente com a Jacqueline Pinzon. Em 2007, criamos o grupo “Núcleo Constantin – Teatro de investigação2” onde atuo como ator pesquisador. Em 2009 ingressei para o curso de Licenciatura em Teatro nesta Universidade por acreditar que a licenciatura possibilita maior garantia de trabalho do que o bacharelado de teatro. Acrescento que minhas únicas experiências como professor, foram nas aulas de catequese na adolescência e posteriormente nas de yôga, que ministrei em Vacaria e por último participei pela UFRGS do projeto Conexões de Saberes, onde fui bolsista do programa Escola Aberta e ministrei oficinas de teatro em escolas municipais. Me colocando como a figura do professor pude aprender muito, além de trocar experiências profissionais, artísticas e de vida com outras pessoas. Talvez, no que se refere ao teatro, legar essa arte onde muitas vezes ela não tem a devida importância. Poder ser o portador desse conhecimento tão mágico e significativo me coloca numa posição superior em relação a outras áreas do conhecimento. Isso me remete ao lugar sagrado, um lugar onde pessoas possam se reunir para praticar o teatro. Por isso, tenho convicção de ter optado pela carreira certa.
1 Os atores Marcos e Piti eram responsáveis pela criação do espetáculo “Um Lugar Sagrado”, ambos os atores são vacarianos que atualmente moram e trabalham em Porto Alegre.
2SPOLIN, Viola. Improvisação Para o Teatro. São Paulo. Perspectiva, 2008.
3Teve início em 29/09/1895 com a Escola de Farmácia e Química. No ano de 1934 era chamada Faculdade de Porto Alegre, vinculada a essa criou-se a Faculdade de Belas Artes. Após a ano de 1968, passou-se a chamar Universidade do Rio Grande do Sul e a Faculdade de Belas Artes hoje é conhecido como Instituto de Artes.
4O Teatro Escola de Porto Alegre foi fundado em 1996 e segundo informações contidas no site da própria escola (http://www.tepa.com.br/), ela é única que qualifica profissionalmente atores no Rio Grande do Sul. Informação essa que pode ser questionada, por exisite a Universidade de Santa Maria que oferece o curso de bacharelado em Artes Cênicas.
5O Depósito de Teatro se coloca como um espaço de experimentação cênica e conta com mais de 10 anos de existência.
6Fundada no ano de 1978, denominada Escola de Teatro Popular se dedica ao criação e ampliação do teatro de resistência na Cidade até hoje.
7Retirado do endereço eletrônico http://www.eeagorajose.kit.net, em 20/05/2010 às 21:29h.
8O Curta foi dirigido por Willian Pelissari e realizado na Cidade de Vacaria.
9Fundada em 1989, na cidade de Caxias do Sul.
10Atualmente mestranda do PPGAC, pelo Instituto de Artes da UFRGS.
11O grupo tem orientação de Jacqueline Pinzon e possui, além de mim, mais três membros.
Bem, era isso!.
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